Quando nos reportamos a educação da
pessoa com surdez, muitas vezes ficamos presos a questões referentes a língua, que
está na contramão da perspectiva inclusiva visto que separa as pessoas com
surdez das ouvintes, e deixamos de tratar de questões muito mais importantes,
como a utilização de práticas educativas que propiciem o desenvolvimento de suas
potencialidades.
As
questões referentes a língua devem ser debatidas, contudo não podem ser o foco
das discussões, é preciso também romper a dicotomização entre oralistas e
gestualistas e nos atentar a concepção pós-moderna, cuja tendência é o
bilinguismo.
“Porém,
ao pensar a abordagem bilíngue para a educação linguística da pessoa com
surdez, deslocamos o lugar especificamente linguístico e a tratamos com outros
contornos: a LIBRAS e a Língua Portuguesa, em suas variantes de uso padrão,
ensinadas no âmbito escolar, devem ser tomadas em seus componentes
histórico-cultural, textual, interacional e pragmático, além de seus aspectos
formais, envolvendo a fonologia, morfologia, sintaxe, léxico e semântica”.
(DAMÁZIO; FERREIRA, 2010, p.49)
No
que se refere a questão da potencialidade, o interesse é desmistificar o
problema biológico, a deficiência, e centrar-se no potencial que esse ser
humano tem, estimulando-o nos aspectos cognitivos, culturais, sociais e
linguísticos, para que possa adquirir e produzir conhecimento.
“Por
isso, é necessário discutir que, mais do que uma língua, as pessoas com surdez
precisam de ambientes educacionais estimuladores, que desafiem o pensamento e
exercitem a capacidade perceptivo-cognitiva. Obviamente, são pessoas que
pensam, que raciocinam e que precisam, como as demais, de uma escola que
explore suas capacidades, em todos os sentidos”. (DAMÁZIO; FERREIRA, 2010,
p.50)
Para
tanto o foco das discussões deve ser a transformação da escola e de suas práticas pedagógicas excludentes e
nesse movimento inclusivo compreendemos a importância do Atendimento
Educacional Especializado para a pessoa com surdez, como meio de complementar o
trabalho realizado na sala comum, visando a autonomia e a independência, em
todos os aspectos, da pessoa com surdez.
Esse
atendimento deve ser organizado em três momentos distintos: o Atendimento
Educacional Especializado em Libras, o Atendimento Educacional Especializado
para o ensino de Libras e o Atendimento Educacional Especializado para o ensino
da Língua Portuguesa. Deve ser desenvolvido numa perspectiva inclusiva, tendo
como ponto de partida a potencialidade e a capacidade humana e como objetivo
principal o desenvolvimento e a aprendizagem do aluno. Nesse sentido, é adotada
a Pedagogia Contextual Relacional que de acordo com Damázio(2005), tem como
sentido formar o ser humano através de contextos significativos, procurando
desenvolvê-lo em todos os aspectos possíveis, levando em consideração as
vivências contextuais relacionais que o ser humano experimenta em sua evolução.
Desse modo, o aluno com surdez, se sentido situado, passará a compreender mais
facilmente os conteúdos estudados. É um ambiente no qual o aluno aprenderá a
aprender, a partir da compreensão dos conhecimentos através de novas práticas,
estratégias e recursos pedagógicos, para isso aplica-se a metodologia
vivencial.
“Para
efetivar o cotidiano escolar do AEE PS, aplicamos a metodologia vivencial, que
leva o aluno a aprender a aprender. Essa metodologia é compreendida como um
caminho percorrido pelo professor, para favorecer as condições essenciais de
aprendizagem do aluno com surdez, numa abordagem bilíngue. Nesse sentido, o
professor do AEE PS, na condição de autoridade, para gestar e com
responsabilidade para construir o ambiente da aprendizagem para esse aluno,
busca métodos, escolhendo os melhores procedimentos e recursos para
operacionalização da aula especializada”. (DAMÁZIO; FERREIRA, 2010, p.53)
Todo
o trabalho realizado no AEE PS busca preparar a pessoa com surdez para viver a
sua individualidade e a sua coletividade, visando a superação de limitações
através das potencialidades, em prol de uma sociedade mais humana, que respeite
a sua própria condição plural.
Referência
Teórica:
Coletânea
UFC-MEC/2010: A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar. Fascículo 05: Educação Escolar de Pessoas
com Surdez - Atendimento Educacional Especializado em Construção, p. 46-57.
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